Katia Maciel: Mantenha Distância

Múltiplos cinemas

"O cinema representa a sétima arte: é no mínimo o que afirma uma célebre frase do início do século vinte. Mas o cinema muda a olhos vistos. Sua história, e também sua geografia, são tortuosas após vinte ou trinta anos. A arte também muda, e o que os museus apresentam atualmente não tem muita coisa em comum com o que as galerias de vanguarda propunham no ,início do século vinte. Assim sendo, a questão continua a ser colocada regularmente, e continuamos comparando o cinema às artes já mais ou menos estabelecidas e querendo demonstrar agora e sempre que ele faz parte do conjunto das artes".  Jacques Aumont, Le Septième Art, 2003


Kátia Maciel define o conjunto de trabalhos que ora apresenta como Transcinema.

Esta definição nos parece bastante exata para diferenciar e situar as proposições de câmera, imagem e projeção dentro de renovada problemática  que a própria história do cinema nos oferece  desde os seus primórdios, ou seja, o questionamento que se faz, desde  o seu nascimento, sobre a natureza do cinema e o seu papel enquanto arte e linguagem visual.

Realizadora de filmes, audiovisuais,vídeos, pesquisas e publicações sobre arte brasileira, teoria e estética do cinema, Kátia Maciel chega  a sua realização mais complexa ao extender  sua experiência com a visualidade multimídia à uma situação-limite  de uma idéia de " do campo como limite do plano fílmico  que está sendo redefinida pelo surgimento de novas camadas tecnológicas" ou ainda o que chama de cinema-instalação.

Acreditamos portanto, que o envolvimento de Kátia Maciel com obras e vertentes experimentais da arte brasileira como o Neoconcretismo, Hélio Oiticica, Cildo Meireles e Artur Barrio tenha contribuido substancialmente para a configuração conceitual e formal dos trabalhos que compoõem esta sua proposta de Transcinema : a questão da participação do espectador, o caráter ambiental na obra de arte, as instalações e a interatividade possibilitada pelas novas tecnologias.Assim, temos a evidência da atuação de conceitos oriundos diretamente do fenômeno da transformação da pintura (vanguardas do século XX) e que essses representam simbólicamente a passagem da arte moderna para a sua condição contemporânea.

De maneira análoga  podemos nos remeter às realizações do chamado Cinema Estrutural  das décadas de sessenta e setenta nos Estados Unidos, Inglaterra e Europa, quando cineastas como Hollis Frampton, Michael Snow, Peter Gidal, Malcom LeGrice, Paul Sharits, Carolee Schnemann, Jonas Mekas,  e muitos outros, experimentavam novas possibilidades de realização e definição de valores fílmicos, apoiando-se fortemente em questões e conflitos da pintura e escultura: as estéticas do Abstracionismo Expressionista e do Minimalismo, ou seja, pontos críticos das vanguardas ao final do modernismo -  o drama da busca pela definição da essência, daquilo que se queria definir como especificidades da pintura e da escultura  transladado para problemáticas do cinema: desconstrução da idéia de narrativa  tempo fílmico, etc.

A idéia de Transcinema não parece querer negar conceitos fílmicos ou fazer oposição às experiências anteriores.  Faz uso livre, como já dissemos, de várias vertentes experimentais aliadas às novas tecnologias, para simplesmente propor e explorar novas possibilidades de resolução para a imagem e também reorganizar o espetáculo-cinema.

Um dos seus mais recentes trabalhos  em arte eletrônica chama-se" Um, Nenhum e Cem Mil", realizado em Londres. É uma obra ficcional oferecida ao espectador participante através de jogo lúdico de permutações randômicas e virtuais e que é parte da pesquisa que realizou sobre o tema do retrato na história da pintura.
"Um, Nenhum e Cem Mil" oferece ao expectador combinações quase infinitas de imagens e diálogos extraídos do lugar-comum das expressões verbais da vida cotidiana e que em justaposições aleatórias provocam eficazmente espanto e renovação no universo de valores extratificados dos real.

É quase inevitável não relacionar os resultados de processos criativos como Transcinema de Kátia Maciel à temas decorrentes e recorrentes da tradição fecunda do modernismo, tais como nos fundamentos poéticos de Ezra Pound, James Joyce, T.S.Eliot e Gerttrude Stein; com o cinema de Eisenstein, de Alfred Hitchcock, com o Cinema Estrutural e com a iconografia seriada da Pop Art e dos postulados de Marshall McLuhan sobre a transição fenomenal do arquétipo ao chichê.
É evidente neste conjunto de trabalhos uma relação fértil com a tradição da arte ao lado de uma atualização permanente na expressividade contemporânea.

Luciano Figueiredo
Rio de Janeiro, 2004
Texto escrito para o catálogo da exposição "Mantenha Distância" realizada no Paço das Artes em São Paulo e no Paço da Liberdade, em Curitiba.