Katia Maciel: Ondas: Um  Dia de Nuvens Listradas Vindas do Mar

KM: desvarios

Intelectuais e artistas sempre se encontraram na mútua convergência da construção do momento público que é a obra de arte e seus rituais de apresentação: celebra-se a singularidade do instante em que a produção de pensamento – sensação e conceito – é oferta generosa, inflexão e dobra do tempo. O trabalho de arte traz a promessa do presente radical, sempre e sempre; essa é uma das possibilidades de seu exercício. Katia Maciel é uma pesquisadora que, nas últimas décadas, vem construindo modalidades de confronto com o mundo, no manejo dos dispositivos de produção da imagem em movimento – cinema, vídeo, videoinstalação, controle digital da imagem, etc. O terreno em que se move é aquele do transcinema, termo que ajudou a criar e significar, no investimento de uma inteligência própria do dispositivo técnico de intervenção artística – entrecruzamento de narrativas, efeitos, sequenciamentos, ações corporais e vozes: há já um corpo de obra e conjunto de experimentos que trazem um fio sinuoso de espessura própria, onde se materializam as inquietações e problematizações de uma poética. Reinventar-se como artista impôs-se como desejo, tarefa produtiva e movimentação pragmática no corpo a corpo com a prática de produção de pensamento, nas pontes que ligam a universidade à sociedade – e agora, também, nas redes de um circuito de arte, com suas nuances e reverberações.

É fascinante o processo através do qual os artistas se inventam em público, buscando construir lugares de emissão de fala frente ao conjunto de imagens coletivas da sociedade, alinhando-se às práticas existentes, mas também ali instalando caprichos e descontinuidades. Talvez seja através da série de vídeos Desvarios (2008-2009) que Katia Maciel se deixe atravessar mais literal e diretamente pelos devires da produção da obra de arte, fazendo-se presente nas ações através do corpo ou da voz e, ao mesmo tempo, acionando alguns dos mecanismos recursivos tão caros à sua prática: fazer recomeçar novamente as ações construídas, sem deixar que se concluam em uma operação satisfatória de finalização dos processos. O canto infantil que embala a câmera em seu passeio pelo canteiro de flores (A linda rosa juvenil) é confrontado com o crescimento descontrolado e autoportante das formações vegetais (Ver de); ou o gesto de preenchimento líquido de um simples copo não vem a termo como se espera (Meio cheio, meio vazio), ao mesmo tempo em que a artista se retrata em gestual excessivo de colocar colares em seu próprio corpo, sem qualquer medida (Colar): cada qual destas ações videográficas – ainda que diversas em suas manobras de construção direta ou indireta da imagem, lançando mão de manipulações, construções e efeitos – aponta para o esforço da produção de um desvio qualquer, pequenos delírios, desacertos ou desatinos (termos que ajudam a definir desvario, segundo dicionários). O efeito final é de suspensão, no sentido de arrancar as coisas e ações registradas de sua amarração cotidiana, transformado-as em casos particulares de repetição e recorrência, ligeiros redemoinhos – em cada caso, ocorre insistência, mas acontece também aquele que é um dos principais derivados da construção recursiva, a devolução e a restituição não do mesmo, mas do outro, a produção de diferença.

Neste grupo de vídeos, Katia Maciel é atraída pelas aproximações e induções da repetição, trabalhando quase em direção ao uso de mecanismos de produção de atenção próximos à hipnose – no sentido de envolver o espectador no loop do pequeno gesto, repetição mecânica da percepção, torpor. É em O livro aberto que a artista, porém, indica outra direção – embora ainda dentro da mesma estratégia de produção de sentido: ler e escrever; escrever e ler; sempre a recomeçar. Entretanto, não porque o fim da narrativa é seu contínuo recomeço (como no monumento literário Finnegans Wake, por exemplo), mas porque o exercício contínuo da leitura e da escrita somente avança aos saltos – o interior do livro é sua face mais externa, e quanto mais nos aprofundamos mais somos lançados para fora, para a face pública do objeto, sua camada de comunicação externa. Se esta é também uma obra aberta (franqueada ao espectador), é, sobretudo, indicativa de um modo de constituição da prática artística que se move aos saltos e que arranca sua interface comunicativa mais exteriorizante do interior narrativo repetitivo e desviante. Pragmática insistente, recursiva e circular – desvario como invenção e intervenção. Como indica a artista, em uma frase que lhe é cara, “repetir é esquecer o esquecimento”. E avançar.

 

Ricardo Basbaum é artista, escritor, crítico e curador, Basbaum mistura diversas práticas. Sua produção inclui performances, ações, intervenções, textos, manifestos, objetos e instalações. Obteve o Doutorado em Artes da Universidade de São Paulo (2008). Professor do Instituto de Artes da Universidade do Estado de Rio de Janeiro. Publicou numerosos textos em revistas especializadas no Brasil e no exterior.