Katia Maciel: Mantenha Distância

Mantenha sua distância (nós não a queremos!)

É nossa aparente distância das coisas que nos proporciona a certeza e a ilusão de possuirmos uma identidade separada. A conectividade, por outro lado, pode embaçar essas distinções, tornando o ser mais maleável, ambíguo e indefinido. Distância é diferenciação. É também uma ferramenta de controle utilizada na interação social em toda uma gama de situações, das ruas às hierarquias da política e da religião. É só por manter a distância entre as coisas e as pessoas que o controle pode ser exercido sobre elas. Cada coisa em seu lugar e um lugar para cada coisa. Nesse sentido a distância é um imperativo categórico prescindível. Nosso desejo por sua supressão é anunciado pela ubiqüidade frenética do telefone celular, assim como na arte a abrangência da tecnologia interativa testemunha uma mudança profunda de sensibilidade estética.

Como esperar então que um grupo de obras de arte apresentado sob a advertência “Mantenha Distância” forneça a intimidade de contato entre o observador e o observado? Katia Maciel explora esse paradoxo por meio do uso criterioso da tecnologia interativa, com o objetivo de superar suas limitações poéticas e com o espírito de uma interrogação artística de suas possibilidades. Oculta nessa advertência está seu desafio estético: mantenha distância – se puder.

Seu trabalho busca descobrir, dentro do processo cinematográfico e no gênero da interatividade, de que modo o rosto humano, por exemplo, pode ser usado como interface de comunicação capaz de atingir os processos emocionais e cognitivos de outras pessoas.

Através de uma programação de elementos de vídeo bem concebida, o espectador pode participar de forma efetiva em um processo dialógico possível entre os personagens do cd-rom. Assim, clichês e frases aparentemente inconseqüentes, proferidas por cabeças falantes selecionadas ao acaso, fazem surgir, por meio da interação do observador, trocas narrativas repletas de significado e com expressão emocional.

A ironia da advertência Mantenha Distânciapode ser observada quando a intenção por trás da obra de Katia Maciel é entendida de forma adequada: incluir o observador na construção do diálogo, envolvê-lo no ato mesmo da edição durante o desenrolar de uma obra. Isso proporciona um nível de imersão que está compatível com as ambições atuais da artemídia, a busca por uma imersão desimpedida em que o indivíduo de fato se encontra de ambos os lados da interface. Isso significa estar dentro da progressão de uma instalação, ao mesmo tempo em que se está do lado de fora dela, como participante do progresso do mundo cotidiano. E, por mais que possamos concordar com Mark Twain quando ele diz “a distância confere encantamento à vista”, não podemos duvidar que na nova tradição de arte interativa, para a qual Katia Maciel faz uma contribuição importante, a imersão nos permite observar o encanto da proximidade. Como Twain, sabemos que as distâncias podem enganar, ou melhor, que distanciar é enganar. Todo caminhoneiro sabe que objetos vistos pelo retrovisor estão mais próximos do que pensamos.

Na verdade, o que está em jogo aqui é a intimidade. Reconhecida até mesmo nas trocas clichês entre amigos ou estranhos, na repetição de frases gastas, na reiteração de imagens familiares ou na observação a partir de pontos de vista conhecidos, não se pode negar a intimidadedos relacionamentos. É ali, no contexto de uma livre troca entre observador e aquilo que é visto, que podemos celebrar, assim como reavaliamos, o que nos é familiar. E é também a reciprocidade da distância e dos ambientes fechados, do tempo e do instante – questões que perpassam a visão de Katia Maciel – que nos levam a um novo entendimento da noção do Eterno Retorno, para o qual o ciclo em loop de imagens serve como metáfora. O loop, uma artimanha pós-moderna derivada exatamente da tecnologia cinematográfica e eletrônica, ecoa essa metáfora pré-moderna, até mesmo arcaica, do Oroborus. Assim como a mítica serpente come a si mesma ao comer, o sistema (que incorpora o observador em resposta a sua proximidade) vê a si mesmo ao ver.

Por fim, entendemos que o paradoxo proximidade da distânciapode significar intimidade, mesmo que apenas como um exemplo da “experiência de absurdo nas relações amorosas”, nas palavras de Katia. O absurdo abarca tudo que seja não-causal, aleatório, acaso. A distância evita o impacto enquanto, paradoxalmente, o envolvimento próximo envolve o impacto, ou seja, o impacto físico da presença do observador no espaço de uma instalação. A traseira do caminhão, nesta exposição, é um potente lembrete de nossa compreensão efêmera da realidade. Não podemos ultrapassar acontecimentos, mas também não podemos de fato nos distanciar deles. A arte clássica buscou estabelecer a autonomia do mundo, visto como algo que existe fora de nós, à distância. A harmonia, pensava-se, residia na objetificação do nosso entorno e no isolamento do mundo na apreensão do espaço da perspectiva. Katia Maciel nos mostra que a arte pode destruir a distância ao agir no espaço interativo, oferecendo canais de experiência nos quais o observador torna-se uma parte integrante da maneira como as coisas acontecem.

Assim, a interação torna-se êxtase, uma elevação dos sentidos, em que o espaço não tem leis, da maneira que talvez seja permitida somente pela transformação digital. É dentro desse novo tipo de espaço e tempo que Katia Maciel celebra o fato de se recusar a manter distância.

Roy Ascott
2003
Texto escrito para o catálogo da exposição "Mantenha Distância" realizada no Paço das Artes em São Paulo e no Paço da Liberdade, em Curitiba.