Katia Maciel: Ondas: Um  Dia de Nuvens Listradas Vindas do Mar

Você já viu o horizonte recentemente?(1)
A paisagem sensorial de Katia Maciel

A instalação interativa, Ondas: Um Dia de Nuvens Listradas Vindas do Mar, que Katia Maciel expõe no espaço redondo  do MIS, examina a natureza da imagem eletrônica por meio de projeções de vídeos de ondas que, ao serem acionados pelo observador, produzem novas paisagens. Circundados pelo murmúrio e imagens das ondas do mar e da areia projetadas horizontal e verticalmente, penetramos num espaço e temporalidade paralelos e experimentamos a vertigem poética provocada pelo descentramento da visão, entre a ficção e a não-ficção, entre o vazio volumétrico, as superfícies planas da galeria e o empilhar de horizontes que questiona a lei da gravidade.

Exibida pela primeira vez em 2006 na exposição Interconnect@between attention and immersion no prestigioso centro de arte e media ZKM, em Karlsruhe, na Alemanha, a obra é mostrada em São Paulo pela primeira vez, e também pela primeira vez na sua escala original. Trabalhando há 15 anos no fértil espaço entre o cinema e as artes visuais, com Ondas..., Maciel continua a interrogação da imagem em relação ao movimento do corpo do observador, explorando simultaneamente aparatos projetivos e sensoriais.

Entre a arte e a literatura: James Joyce e Georges Bataille

O título — Ondas: Um Dia de Nuvens Listradas Vindas do Mar — relaciona representações visuais e verbais privilegiando a noção, também defendida pelo filósofo da tradução Vilém Flusser, de que a linguagem não só reflete, mas cria realidade. (1) A frase-título da instalação é tirada da obra de James Joyce Retrato do Artista Quando Jovem, em que no mesmo parágrafo encontramos a seguinte pergunta: “Seria, pois, que ele amava apenas o erguer e o tombar rítmico das palavras mais do que a associação delas em legendas e cores?” Nesse “erguer e tombar rítmico das palavras” no qual Joyce declara um interesse maior pela contemplação do mundo interior do que pela observação do mundo sensível, Maciel cria nuvens, por meio do movimento de ascensão e colapso de camadas de ondas, traduzindo visualmente, como em Joyce,  a figura do sublime oceânico como tema e forma metamórfica.

No pulsar rítmico das ondas e no multiplicar de listras de mar, a artista enfatiza a forma-sem-forma — formless — que os críticos Rosalind Krauss e Yve-Alain Bois foram buscar em Bataille, não como um adjetivo que qualifica, mas como uma categoria com força performática produtiva. (2) Com o objetivo de desconstruir antigas oposições metafísicas na arte, como as de forma e conteúdo, alguns artistas e críticos do século 20 exploraram os registros da materialidade, horizontalidade, pulsação e entropia, como meio de disputar a unidade da forma, assim como as noções de estilo e de cronologia. Junto com o questionamento da visão desencarnada, a instalação Ondas... também subverte a noção de círculo hermenêutico, baseada na totalidade do entendimento e da conclusão. As paredes circulares da galeria não se fecham e o movimento de erguer e baixar de ondas é também medida temporal não linear. Um pulsar que não busca o descanso e a resolução, mas vai, ao contrário, de encontro à lógica referencial da representação. A obra de Maciel navega nas águas do quasi-cinema, do proto-cinema ou transcinema, (3) onde ao contrário de Odisseu, o herói da Odisséia de Homero, somamos àquilo que vemos com os olhos, o que sabemos com o corpo e o que nos é sussurrado pelo murmúrio das ondas e o canto das sereias.

Encenando o sublime oceânico no abismo da visão

De pé, na margem entre o mar e a terra, entre a materialidade da imagem e o devaneio poético, o espectador vê sua sombra refletida na areia como parte do precipício de reflexos que a obra produz. A instalação evoca o sublime enquanto infinito matemático, isto é, enquanto aquilo que não pode ser representado ou localizado, e que como aponta Clarice Lispector, por exemplo em Água Viva, faz parte do fluir ontológico. As ondas que se empilham criam uma memória vertical, reviravolta de camadas profundas com potencial de provocar um maremoto, um evento que não pode ser contido. Daí a ansiedade também presente nesse abismo da visão que, no entanto, é solar, claro, originário tanto da luz do sol quanto da luz elétrica dos projetores, ambas captadas em sua materialidade e ecoando, por exemplo, uma das mais lindas páginas do Livro da Criação, de Lygia Pape, e a mágica dos cones de luz projetada de Anthony McCall. (4)

O mergulho do corpo na era da ubiquidade da imagem

Qual seria o lugar do corpo e dos sentidos na natureza textual à qual Joyce se refere? E onde localizamos a escala humana na arquitetura imagética que Maciel encena à beira do sublime oceânico? Como focalizar o olhar no abismo da visão? Onde localizamos a moldura dessa marina na qual não conseguimos distinguir os limites de dentro e de fora da obra? Na multiplicação de nuvens listradas vindas do mar que circunda o corpo do observador a escala é elástica, do sonho e do devaneio ou ainda de uma tempestade em copo d’água. Em Ondas..., Maciel traz um espaço para dentro de outro — o que não pode ser contido ou representado e a atualidade da nossa presença dentro do espaço projetivo do vídeo, ao mesmo tempo, dentro e diante de uma abstração de azuis de nuvens listradas e de águas emendadas. Aqui, a interFACE é interBODY e o mergulho do corpo é um mergulho no mar de sentidos. (5)

Simone Osthoff é doutora em media e comunicação pela European Graduate School. Crítica, curadora, e historiadora de arte, seus inúmeros ensaios foram publicados em periódicos, revistas e livros de diversos países e em oito idiomas. A partir de 2000 faz parte do painel de críticos da Leonardo Review. Palestrante internacional em dúzias de eventos, leciona na School of Visual Arts da Pennsylvania State University. Osthoff é autora do livro Performing the Archive (New York, Atropos Press, 2009).
Texto escrito para o catálogo da exposicao “Ondas: um dia de nuvens listradas vindas do mar”, realizada no MIS – Museu da Imagem e do Som de Sao Paulo

(1) Have You Seen the Horizon Lately? Oxford: Museum of Modern Art, 1997. Catálogo da exposição retrospectiva de Yoko Ono.

(2) Vilém Flusser, Língua e Realidade. São Paulo: Annablume, second edition 2004, third edition, 2007 [originally published in 1963].

(3) Rosalind Krauss and Yve-Alain Bois, Formless: A User’s Guide, Zone Books, 1997.

(4) Quasi-Cinema é um conceito criado por Hélio Oiticica e Neville de Almeida denominando os experimentos audiovisuais e programas que desenvolveram juntos no anos 70, como a série Cosmococas. Proto-Cinema se refere a formas precursoras do cinema no fim do século 19, como a lanterna mágica. Transcinemas é um conceito criado pela artista para expressar o trânsito experimental entre cinema e artes visuais. Ver Katia Maciel, org. Transcinemas. Rio de Janeiro: ContraCapa, 2008.

(5) O Livro da Criação de Lygia Pape foi criado em 1959 como parte do movimento Neoconcreto. A instalação de luz projetada de Anthony McCall — Line Describing a Cone, 1973 —fez parte da importante exposição Into the Light: The Projected Image in American Art 1964-1977 organizada por Chrissie Iles no Whitney Museum of American Art de New York em 2002. Uma instalação similar de McCall de 2007 — You and I, Horizontal III — fez parte da mostra Cinema Sim: Narrativas e Projeções no Itaú Cultural em 2008.

(6)  Mergulho do Corpo é o título da obra B47, Bólide Caixa 22, 1966-67, de Hélio Oiticica. Esse bólide é uma caixa d’água de amianto com o título-poema impresso no fundo do tanque cheio d’água. Ver Hélio Oiticica: A Pintura Depois do Quadro, organização de Luciano Figueiredo. Rio de Janeiro: Silvia Roesler Edições de Arte, 2008, p. 176.