Katia Maciel: Ondas: Um  Dia de Nuvens Listradas Vindas do Mar

Póiesis e Tékne – Entrevista com Katia Maciel

É surpreendente quando um artista consegue suavizar a tecnologia a ponto de não notarmos que estamos diante de uma obra feita com algoritmos, computadores, sensores de presença; quando a experiência estética consegue driblar nosso afã por entender o que estamos vendo. Katia Maciel atinge esse raro estado. Diante de obras como Uma Árvore, a questão do “como isso foi feito”1 torna-se absolutamente irrelevante por alguns minutos, substituída pelo deslumbramento estético. Inevitavelmente, depois de alguns momentos de suspensão, olhamos em volta, tentando localizar os aparatos que constroem a obra. Em uma pintura, esse processo de pouso após a suspensão ocorre quando a contemplação do todo é interrompida por análises racionais sobre o valor histórico ou financeiro da obra, ou pela observação detalhada de cada pincelada, que pode ser uma continuidade do deleite estético ou assumir uma caráter cientificista. Aí reside então um pressuposto para a apreciação da video-arte: entregar-se à obra, não à tecnologia. Vídeos e vídeo-instalações são formas de arte até agora pouco afeitas ao mercado, então não interrompemos a experiência estética para substituí-la pelo deslumbramento com o preço da obra, mas interrompemo-la pelo deslumbramento com os meios tecnológicos empregados. O interesse, sempre o interesse, que no máximo provê experiências “interessantes”, portanto fracas, perturba a emergência da arte. O grande deslumbramento, a experiência estética, vem do mergulho na poesia, nos signos criados pela obra.

 

Pensando em todas essas questões, troquei mensagens com Katia Maciel em março e abril de 2012. A entrevista a seguir é o resultado dessa comunicação, e introduz o leitor no universo de criação da artista carioca, que é também professora no departamento de comunicações da UFRJ, e cuja obra vem crescendo a ponto de hoje fazer parte de qualquer discussão sobre a video-arte brasileira na contemporaneidade.

 

Paula Braga: Revendo algumas de suas obras, uma questão apareceu sobre a qual eu nunca havia pensado em relação ao seu trabalho: em vários vídeos como Meio Cheio Meio Vazio ou Mareando, você usa a tecnologia para criar impossibilidades, como o copo que nunca transborda nem esvazia, ou a onda que vem e vai. Lembrei então do famoso texto do Walter Benjamin, de 1936, "A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica" no qual o filósofo alemão salienta que a tecnologia dá a perceber coisas do real que antes não seriam percebidas, como a câmera lenta que propicia um conhecimento detalhado do movimento, ou o zoom. Para Benjamim, isso expande o inconsciente óptico, passa-se a ter um repertório maior sobre o real. Bem, na sua obra, o real não parece ser o alvo. Você usa a tecnologia justamente para criar o impossível. Isso expande de alguma forma o "real conceitual", ou seja, aquilo que, mesmo não podendo existir no mundo fenomênico, pode ser pensado, como um copo que nunca transborda. Você pode comentar um pouco essa relação da tecnologia com o impossível?

 

Katia Maciel: Todos nós vemos “coisas”. A diferença é que o artista faz ver estas outras coisas. Então, se vejo um copo sempre enchendo e, ao mesmo tempo, não enchendo nunca, construo a imagem em movimento da minha visão. Neste sentido, não filmo o que vejo, vejo o que filmo. Não se opera então uma distinção para mim entre o que é ou não o real, ele não preexiste como no sistema de representação clássico, o que há é uma convivência entre imagens, no sentido bergsoniano em que tudo é imagem. Se a imagem em movimento foi construída pelo cinema, o vídeo acrescentou muito a sua linguagem tornando-a mais maleável por um lado e instável por outro. Isto porque as câmeras portáteis e os processos de edição caseiros tornaram a imagem de vídeo um instrumento de uso acessível e também mais suscetível aos mais recentes efeitos das novas tecnologias. Com isto, o repertório da imagem em movimento se complexificou, intensificando, do ponto de vista da forma, as suas variações ao criar um sistema onde quase tudo é da ordem do possível. As vezes, os contrários como nos textos de Lewis Carroll, as vezes as inversões, os microcosmos, o olhar estendido em todas as direções.

 

PB: Ainda nesse sentido da expansão do que é possível pensar, vejo muito nos seus trabalhos a metáfora como estratégia. A Maçã no Escuro, por exemplo, no qual uma faca perfura uma maçã insistentemente sem no entanto cortá-la ou alterá-la pode ser uma metáfora da persistência, ou da casca externa que disfarça o que certamente está sendo ferido por dentro. Podemos considerar que em seus trabalhos você tenta perfurar, com a metáfora, uma casca externa da linguagem, para se aproximar de um núcleo dentro do qual as coisas significam de uma forma mais silenciosa, sem as palavras. Essa perfuração da linguagem me parece que aproxima seus vídeos da poesia escrita...

 

KM: Os romances e os poemas estão muito presentes nos filmes e vídeos que realizei. Não é necessariamente uma metáfora, mas a mutação de uma linguagem em outra. Maçã no escuro de Clarice Lispector, Um nenhum cem mil de Luigi Pirandello são títulos de dois dos meus trabalhos que não citam, ou adaptam a escrita, mas geram uma imagem a partir das sensações experimentadas durante as leituras. No entanto, cada vez mais tenho percebido uma forma entrelaçada dos meus próprios textos poéticos com as imagens que invento, ou seja, vejo imagens nos poemas e poemas nas imagens. Como se a escrita tivesse muitos arranjos possíveis, encontros e desencontros entre as palavras e seus avessos, deslocamentos de sentidos, não sentidos, outros sentidos. Esta questão é o que dá forma a instalação interativa Um, nenhum e cem mil onde diferentes personagens com suas falas amorosas clichês são combinados em narrativas possíveis e impossíveis.

 

PB: Temos discutido bastante a questão da video-arte no Brasil, sobre o fato de a video-arte ainda não circular amplamente fora do ambiente das instituições. Há poucos colecionadores particulares que considerem o video como opção. Claro que isso é compreensível quando se fala de video-instalações interativas, que pela escala exigem um espaço grande, e um esforço de tecnologia para ser montado. Mas o video apenas, tem a dimensão de um livro, de um livro de poesias. Você percebe uma diferença em relação ao mercado de arte para video no Brasil e em outros países?

 

KM: A questão do vídeo com o mercado é uma questão de tempo, assim como foi com a fotografia. A compra de fotografias por colecionadores demorou quase um século e a venda dos vídeos no mercado internacional é recente, embora esteja se intensificando. O mercado brasileiro é mais lento e mais incipiente, mas não tem mais como ignorar uma forma que nos museus e galerias do mundo já assumiu um lugar da maior importância. A  questão da imagem na cultura contemporânea é preponderante e a arte, que cada vez mais discute a vida, não tem como ignorar os inúmeros dispositivos de registro e distribuição de imagens que estão na ordem do dia. Os artistas experimentam, mas o mercado demora bem mais para experimentar. As instituições de arte já investem na compra de vídeos,  é preciso que os colecionadores particulares entendam melhor a dinâmica particular de uma obra que não é objeto, mas que tende a ser cada vez mais valorizado.

 

PB:  A escrita então é muito importante para você, mas nos vídeos a sua palavra é uma imagem. De qualquer maneira, seja com poesia ou com imagem, o artista é um criador de signos. Como uma grande parte do pensamento mais recôndito não emerge em palavras comuns, gregárias, o signo que o artista cria tem mais possibilidade de ser um anzol para pescar o que está lá no fundo, e que não viria a tona com os signos que usamos para coisas mais corriqueiras. Agora, esse signo só existe se o espectador o fizer existir. Se a pessoa passar indiferente por uma poesia ou por um video, não vai jogar o anzol. Então isso me levou a pensar nas video-instalações interativas, que exigem um início de engajamento do espectador. Ou seja, o processo de significação, que certamente depende do espectador, na video-instalação interativa parece que já vai avisando: "a obra depende de você para acontecer". O signo que não brota sozinho, o espectador tem que fazê-lo brotar. Você concorda que a video-instalação interativa explicita a importância do espectador num processo que acontece em toda obra, seja na leitura de uma poesia, seja na experiência dentro de uma instalação?

 

KM: Concordo. O uso de tecnologias interativas torna mais preciso o lugar do espectador. No entanto ao contrário do que parece para muitos críticos estas obras não dispensam o artista, muito pelo contrário, o artista precisa ser um propositor que opera com as muitas possibilidades de acesso oferecidas ao participador. O teórico Jean-Louis Boissier considera estas obras, ditas abertas, como as mais fechadas porque o artista deve prever tudo.

 

PB:  Uma curiosidade que eu tenho: você concebe uma obra e tenta achar a tecnologia que consegue realiza-la ou concebe aquilo que sabe que domina tecnicamente e que pode realizar? Você tem obras pensadas mas que não podem ainda ser feitas porque não há recursos tecnológicos?

 

KM: A imagem da obra é sempre primeira, depois penso como vou realizá-la. Muitas vezes inicio um processo procurando por alguma coisa e acontece outra, mas não acredito que isto seja uma particularidade do artista que usa novas tecnologias. O próprio conceito de coeficiente de arte do Duchamp já pensava esta distancia entre o que o artista deseja e o que ele consegue realizar. Sempre penso na ironia da criação do ready-made como uma ironia para acabar com esta distância.

 

Tenho sim vários projetos complexos, alguns precisariam de máquinas feitas especialmente para eles.

 

PB: Além de artista e poeta, você escreve teoria e crítica de arte, faz curadorias, dá aulas na UFRJ no departamento de comunicação. Eu gosto muito do termo que o Ricardo Basbaum inventou, "artista-etc" para falar dessa multiplicidade de papéis, sem ter que recorrer à ideia corriqueira, mas anacrônica, do "artista da Renascença," que é cientista, poeta, pintor. Inclusive, você já escreveu sobre a obra do Ricardo Basbaum. Você é uma artista-etc? A multiplicidade de papéis tem alguma relação com a questão do tempo, que é naturalmente vinculada à linguagem do video? Acho que no seu caso principalmente, há um "detector de presença" que substitui a linearidade do video (e da ideia de "carreira de artista") por um feixe de possibilidades (daí a "carreira de artista" vira "feixe de artista-etc").

 

KM: Gosto muito deste conceito do Ricardo com o qual me identifico bastante. Na verdade, tudo isto não foi planejado. Quando passei no concurso para a Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro já havia realizado três curtas-metragem e um vídeo e por algum tempo mantive estas duas atividades, na época como cineasta e professora de maneira independente, no entanto, cada vez mais uma coisa foi se transformando na outra e em mais outra, como os trabalhos instalativos e agora o livro ZUN com poemas. Parecem coisas muito distintas, mas para mim estou sempre sitiada por imagens, elas podem se atualizar como filmes, vídeos e até mesmo como poemas, mas são sempre imagens que de alguma forma me imaginam.

 

PB: Vamos terminar com um poema seu?

 

KM: Prefiro ao invés do poema todo dizer um verso do poema Jaguatirica porque está muito relacionado ao pensamento do loop que é quase sistêmico nas imagens que crio:

“ repetir é esquecer o esquecimento”

 

 

(1) A proximidade entre tecnologia e arte está na origem da palavra arte: “Ars, artis, palavra latina da qual a nossa derivou, corresponde ao grego tékne, que significa todo e qualquer meio apto à obtenção de determinado fim. Quanto a póiésis, de significado semelhante a tékne, aplica-a Aristóteles de modo espacial, para designar a poesia e também a Arte, na acepção estrita do termo.” Póiesis é “um produzir que dá forma, um fabricar que engendra, uma criação que organiza, ordena e instaura uma realidade nova, um ser (...) dando forma à matéria bruta preexistente, ainda indeterminada, em estado de mera potência.” NUNES, Benedito. Introdução à Filosofia da Arte. São Paulo: Ática, 2010, p. 17, 20.